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A caixa das luvas

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Desde que o homem é homem as mãos constituem elemento de alta importância na sua vida. Com elas - manobrou cacetes para defesa das feras, - fabricou e usou ferramentas de pedra, - amassou barros, fabricou adobes, construiu casas, agricultou terrenos, - produziu redes, manobrou remos, conduziu barcos... E, estas mãos, calejadas, nodosas, sapudas, feias, de pele espessa e gretada de tantas e tantas e tão úteis utilizações, também acariciaram rostos femininos, afagaram corpos roliços, quentes e desejados, procuraram bebés dentro de barrigas prenhes de mães orgulhosas. Abençoadas mãos. Do outro lado, mãos pequeninas, de pele fininha, todos os dias a caminho da escola, saca ao ombro recheada com o livro de leitura e cadernos de folhas lisas para o desenho, pautadas para as cópias e ditados, de pauta dupla para o aperfeiçoamento da caligrafia, tudo relacionado com a “ caneta de molhar ” em tinteiro de louça branca, enfiado em buraco específico do tampo da carteira escolar.

O ovo de coser as meias

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O ovo de coser as meias O calçado caraterístico do povo português, no passado, era o pé-descalço. A proteção dos pés com botas, chancas, socos, abarcas, tamancos, galochas, nem sempre foi possível. As razões económicas marcaram a vida; a falta de “posses” arredou o calçado. Calcorreando caminhos de montes e vales, sempre de pés nus, desde criança, determinaram a criação de calçado natural de pele dura e resistente como sola de Alcanena. Para quê, então, as meias? Usavam-nas as pessoas de mais teres, que os pés mais “finos” as exigiam para uma vida feliz a três: os pés, as meias e o calçado, poucas vezes com rastos de pau, muitas vezes de borracha, mais ainda de sola; por cima, a pele, na flor ou no carnaz, para se engraxar ou para ensebar. As meias de algodão ou de lã, segundo a estação do uso, iam apresentando mazelas, especialmente, no sítio do dedo grande, do calcanhar ou de qualquer outro onde um preguito a espreitar do calçado ia fazendo das suas, esburacando o tecid

ABC do Folclore – Manual de Iniciação (5)

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«A refeição» (»Cliché» de Homero Câncio. Alhandra)   As diferenças Embalados pelo aforismo “ cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso ”, há ainda quem não tenha concluído que o fronteiro terrestre nada têm a ver com as diferenças que nos caracterizam. Aliás era - e ainda é, por vezes - tanto o desprezo que o nosso folclore, a nossa cultura tradicional, mereciam dos pseudointelectuais cá do burgo, que os decisores da cultura não fizerem em tempo devido o que, na opinião de Aurélio Lopes seria o Atlas da Cultura Portuguesa . Concluindo, diga-se que essas diferenças são determinadas pelas “áreas culturais“ que são áreas territoriais em que a cultura tradicional apresenta caracteres suficientemente semelhantes para as considerarmos como um corpo cultural mais ou menos orgânico.  Para o que é principalmente determinante a interligação ambiente social/ambiente natural. Aliás, Aurélio Lopes considera que “ não há uma maneira de viver no Alentejo, diferente do Ribatejo, diferente

ABC do Folclore – Manual de Iniciação (4)

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«O Moleiro» Vila Chã - Beira Alta («Cliché» de Francisco Guilherme Lacombe Neves) Etnografia Desde sempre existe quem considere “etnografia” como sinónimo de “trajos usados no folclore”, e a Federação considera-a como a “ disciplina que descreve os povos/comunidades no que concerne aos seus usos, costumes, índole e cultura ”. Mas se há situações em que se respeitam diferentes conceitos, em meu entender estas não o são. Sendo o folclore “a expressão das vivências das gentes de antigamente, no tempo em que a sua vida ainda não era tão influenciada pelos usos costumes de outros povos”, a “etnografia” é única e precisamente “o estudo do folclore”, como aliás o citam diversos dicionários. Recordo-me que, procurando saber a visão que outros colegas destas andanças tinham de assuntos que considerava pouco clarificados, coloquei a seguinte questão: Se estiver um “grupo” a actuar, onde está o folclore e onde está a etnografia? E a resposta que me convenceu (Aurélio Lopes) foi: dep

ABC do Folclore – Manual de Iniciação (3)

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"No campo" («Cliché» de Homero Câncio, Alhandra) Com a leitura dos dois textos anteriores , ficou a saber “o que é folclore”, mas agora tem que saber a data em que o mesmo se fixou para evitar ser deturpado por outros valores. Vai ouvir muitas pessoas para comparar, sendo que tudo o que recolher tem que ser da mesma época. Entretanto o que deve ser um “grupo de folclore”? Digamos que um “museu vivo” dos tempos de antigamente, quando as comunidades eram a expressão do tradicional. Sem que haja uma data certa para todas as regiões, penso eu que o folclore deixou de evoluir como tal entre finais do século XIX, início do século XX, indo até mais ou menos aos anos 20/30 - conforme a chegada do progresso. Escolhido então o período que se pretende abranger, as primeiras questões que se nos colocam é saber como vestiam, o que cantavam, o que bailavam e como o faziam - o que depois vai estar interligado com muitas outras questões. Mas atenção que o “Folclore” não é apenas

ABC do Folclore – Manual de Iniciação (2)

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"Guardando o gado" - Vila Chã (Cliché do sr. Francisco Guilherme Lacombe Neves) Finalizámos o texto anterior , informando que já em 1878 o Folclore era reconhecido internacionalmente como “ saber tradicional, história não contada de um povo ”, primeiro para se referir às tradições, costumes e superstições das classes populares, posteriormente para designar toda a cultura nascida principalmente nessas classes. Temos assim, que “folclore” é a “cultura tradicional do povo”, cujo conceito havia que definir. E é nesse sentido que em Dezembro de 2002, por iniciativa do Jornal Folclore , se reúnem em Santarém especialistas e estudiosos na matéria, a fim de elaborar um texto que a todos servisse de orientação. E diga-se, porque de justiça, que o conceito saído dessa reunião merece a nota de excelente, mantendo-se ainda hoje inalterável. Agora, o que acontece ainda com o folclore, é que nada acontece por acontecer, há sempre uma razão para que aconteça. É proibido inventar

ABC do Folclore – Manual de Iniciação (1)

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“Costumes Portuguezes: Na volta do trabalho” (Cliché do sr. Miguel Monteiro, de Vila Real) ABC do Folclore Dizem-me que os jovens a partir da idade escolar estão a perder o interesse pelo Folclore , mesmo como espectadores. É um facto, sendo uma situação que tem de ser revertida, o que passa necessariamente pela escola. Concretamente não sei o que motiva tal desinteresse, mas penso que tudo mudará quando lhes for ensinado que o Folclore é a História dos nossos antepassados, quando as suas vivências ainda não estavam adulteradas por usos e costumes que nada tinham a ver com a sua maneira de ser e de estar. No caso de Montargil , os componentes do nosso grupo “representam” as vivências da nossa gente aí pelos anos 20/30. Claro que foi feita uma investigação etno-cultural, partindo do princípio que anteriormente as pessoas recebiam os “saberes” por via oral ou demonstração, fazendo depois como ouviam e viam fazer. Mas, nem sempre ao mesmo tempo, mas ao ritmo do progresso que c

O ferro de gaveta (ferro de engomar)

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Ferro de gaveta (ferro de engomar) O ferro de engomar ou, simplesmente, de passar, tem raízes muito profundas. Terá nascido na China, lá para o século VIII. Uma pequena taça ou bacia metálica recebia as brasas; uma pega permitia segurar e empurrar o aparelho sobre os tecidos, cumprindo a função de os alisar. O mais fácil de todos era constituído por uma base de ferro “triangular” e uma pega do mesmo metal. Aquecido sobre braseiro, exigia uma pegadeira de pano para proteção da mão e impunha aquecimentos sucessivos. Um dos mais frequentes pelo seu bom funcionamento, guardava as brasas no seu interior e dispunha de uma abertura em baixo e uma espécie de chaminé, em cima, criando-se, deste modo, uma movimentação do ar, que favorecia a combustão e a manutenção do ferro aceso e em bom funcionamento durante mais tempo. O ferro a álcool também foi utilizado, embora por famílias mais abastadas dado o superior custo do combustível. Utilizado apenas em momentos especiais, servia, adeq

Livro de receitas gastronómicas e não só!

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Os livros de receitas de cozinha são hoje comuns. Os autores e as editoras esmeram-se no conteúdo como no aspeto gráfico, para mais facilmente conquistar o comprador e disponibilizar ajudas para quem se dedica à cozinha ou quer melhorar e variar as suas prestações. Também cada qual procura ter o seu próprio livrinho onde regista os pequenos/grandes segredos da culinária, as dicas para uma doçaria requintada, capaz de fazer inveja em dias assinalados de reunião de famílias ou de amigos. Vem de longe esta forma de guardar estas preciosidades, designadamente, os procedimentos de gerações, que era obrigatório guardar para as filhas e para as netas. Dificuldade era a capacidade de as escrever, pois, ao tempo, o analfabetismo, em Portugal, vivia em plena liberdade, mesmo nas classes mais privilegiadas, sobretudo, nos elementos do sexo feminino. O livrinho de receitas que hoje aqui trazemos, vem do século XIX, mais concretamente, de 1833 e foi escrito com caneta “de molhar” e apa

Exposição "Retratos de hoje e de antes" levou Andorra até ao Portugal do início do séc. XX

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  “ Retratos de hoje e de antes ” é o título da exposição que o Grupo de Folclore Casa de Portugal inaugurou no passado dia 7 de maio, sexta-feira, no Centro Cultural La Llacuna do Principado de Andorra .  Esta exposição estará patente ao público até ao dia 28 de maio. Integrado na semana da diversidade cultural da capital do país, Andorra la Vella , os elementos do Grupo apresentaram 18 fotografias de grande formato, realizadas no museu Casa Rull , museu Etnográfico Casa Cristo e museu Casa d’Areny-Plandolit , recreando vivências das gentes do norte de Portugal de inícios do século XX. Uma viagem pela memória dos nossos antepassados, realizada pela fotógrafa Mireia Medeiros e coordenada pela Cami Gonçalves , ambas membros do Grupo.  Ler+ Imagens da Exposição Sugestões: Em defesa dos Trajes Regionais e Tradicionais Lendas de Portugal ABC do Folclore – Manual de Iniciação (1)