Gastronomia Portuguesa: dos vinhos aos queijos, passando pelos fumeiros e enchidos

«(…) O passado é um produto que está na moda, facto que se verifica em múltiplos aspectos, principalmente os que interessam os afectos e a cultura. Nunca se procurou tanto chegar-lhe tão perto, sonhar à sua manipulação, conscientemente ou não. Aquele que conhece o passado e que o sabe representar a si próprio fica senhor de uma chave privilegiada para influenciar o seu próprio imaginário. A alimentação e a cozinha estão nos horizontes dos novos peregrinos da memória, sedentos de uma história-refúgio, ou de uma história-evasão que lhes responde à procura das origens.

Na falta de uma cozinha tradicional que possa satisfazer essa urgente procura, e subtraídos aos imperativos de uma viagem em busca da memória, o comedor convoca produtos que trazem consigo sabores do reencontro.

Queijos, enchidos e doces, pela alquimia da cozinha, que é uma arte de circunstâncias, encerram paladares que podem ser guardados e transportados para um consumo oportuno, longe do lugar do fazer, destino mítico do desejo.

Com estes produtos viaja a memória do que se procura: uma pastagem verde onde pastam ovelhas e cabras, ruídos de chocalhos e de cinchos de rouparia, brenhas que dão cardos para o coalho, caniços onde o queijo repousa e se vai fazendo; alaridos de matanças, saias de mulheres que roçam alguidares da carne para encher, paus na chaminé para fumagem dos enchidos; vagares e ócios junto dos tachos de arame onde as colheres de pau obrigam o açúcar, a amêndoa e os ovos a uniões felizes.

Com o vinho viaja a magia, com o sol e o sabor da terra embalados numa garrafa.

Nesta tetralogia de sabores mergulha o novo comedor, numa demanda do passado, não só para compreender o presente mas para fugir dele. Homens em fuga à descoberta de um refúgio, de um sabor de infância, de um lugar mágico, onírico e misterioso. Apaixonadamente agarrado a um passado, pelas ilusões que ele proporciona, o comedor permite-se a uma errância alimentar procurando nos sabores tradicionais novos objectos do desejo. Mesmo que saiba que está envolvido numa elaborada mentira porque o sabor da memória, mesmo reencontrado, está isolado do cenário que essa mesma memória guarda. O tempo e a distância favorecem o sonho. De longe, as montanhas são azuis.»

Alfredo Saramado, in Guia Expresso O melhor de Portugal – nº6

Festas em honra de S. Sebastião - 20 de Janeiro

No dia 20 de Janeiro celebram-se, um pouco por todo o país, festas em honra do Mártir São Sebastião.

São Sebastião é um santo "protector contra a peste" e "padroeiro dos arcabuzeiros e dos soldados, dos entalhadores de pedra, dos mestres de tapeçaria, dos jardineiros e dos bombeiros", e pouco mais se sabe do que o seu suplício, quando o amarraram a um poste e crivaram de flechas, cerca do ano 302-304, e do que o seu enterro nas catacumbas da Via Appia, em Roma, no tempo do imperador Diocleciano.

Em algumas aldeias do concelho de Boticas (região de Barroso, no Norte do distrito de Vila Real), com características comunitárias muito próprias, ainda há quem, neste dia, tudo faça para preservar algumas tradições, com destaque para a Mezinha de São Sebastião.

Também em Sta Maria da Feira se celebra uma grande festa em honra este mártir, com inúmeras actividades, sendo de destacar a Bênção das Fogaças (doce regional, feito com farinha de trigo e cujo formato foi inspirado nas quatro torres do castelo) e a Procissão.

Segundo lembra a tradição, a Festa das Fogaceiras teve origem num voto ou promessa feita ao mártir S. Sebastião, quando, em 1505, as terras de Santa Maria foram assoladas por um surto de peste e o povo prometeu que, em troca de protecção, ofereceria ao santo, todos os anos, um pão doce chamado fogaça.

O santo atendeu e o povo cumpre, anualmente, com a sua promessa.

Distrito de Vila Real: fumeiro tradicional e artesanato

Fumeiro tradicional

O porco tem sido, desde tempos remotos, um dos pilares da economia doméstica nas comunidades rurais. Ele fornece, bem regrada, carne para todo o ano, proteínas e gorduras que fazem falta, por igual, na dieta de uma região fria como esta. E carne tão saborosa e variegada, que se diz que cada parte tem o seu gosto próprio, desde a ponta do focinho à ponta do rabo – e todas deliciosas.

Os presuntos foram a curar, de pois de convenientemente preparados. Da mesma forma, a gordura, ou unto, vai servir para adubar as sopas e outros cozinhados ao longo do ano. Os lombos, esses têm um destino mais nobre: são utilizados na confecção de enchidos – salpicões e linguiças, na verdade (juntamente com o presunto) o mimo maior de todos os produtos porcinos.

O fumeiro encerra em si antiquíssima arte de temperar. A sua variedade é também surpreendente, desde as alheiras às mouras, e muitas outras variedades, muita delas locais, que só a passagem por lá nos pode revelar.

Poucos cenários serão tão sugestivos como um fumeiro bem guarnecido, na sua enorme variedade, a secar ao fumo da lareira, formando como que um sobrecéu de fartura e sabor na cozinha transmontana. Mas, obviamente, esta produção doméstica, sendo importantíssima para a dieta da família e para a sua economia, não responde às necessidades do mercado. Existem hoje unidades de transformação neste campo, em que o aproveitamento da carne de porco se processa a nível industrial, colocando no mercado produtos de boa qualidade.



Artesanato (Barro Preto e Linhos)

O artesanato é uma das facetas mais interessantes da ruralidade transmontano-duriense. Eele respondeu às necessidades imediatas, comuns, dos dia-a-dia, das populações, em tempos em que a indústria ainda não se tinha desenvolvido o suficiente para colocar os seus produtos na aldeia a preços acessíveis.

Como, porém, o homem cedo se preocupou em deixar uma estética no que lhe sai das mãos, depressa os produtos artesanais começaram a ganhar uma dimensão que transcende o simples utilitarismo e a ser testemunho simultaneamente de valores etnográficos ancestrais e da capacidade criativa do homem rural.

Hoje, apesar do declínio evidente da maioria das actividades artesanais, valorizam-se muito os seus produtos, alguns dos quais alcançaram um verdadeiro estatuto de must, como é o caso dos linhos que as mãos pacientes e artistas das tecedeiras de Agarez (Vila Real), Limões (Ribeira de Pena) e muitas outras povoações serranas criam nos seus teares rústicos, também eles artesanais. É o caso também das louças pretas de Bisalhães (Vila Real) e de Vilar de Nantes (Chaves).

Tantos os linhos (toalhas de mão e de mesa, colchas e outros artefactos) como os barros pretos (bilhas, moringas, alguidares, tachos e esses prodígios de miniatura que dão pelo nome de pucarinhos) têm em Vila Real um momento alto: a Feira de São Pedro, a 28 e 29 de Junho, em que se transaccionam grandes quantidades deste artesanato.




Texto: Folheto - Promoção dos Produtos Regionais do Distrito de Vila Real (NERVIR)

Artigos de Opinião sobre Folclore e Etnografia

Artigos de opinião do Dr. Carlos Gomes, publicados no Portal do Folclore Português:

»» Porque os políticos desprezam o Folclore?
Uma vez mais, por ocasião da passagem de ano, a comunicação social vai mostrar-nos um grupo folclórico proveniente de uma região algures do país a cantar as janeiras ao Presidente da República e ao Primeiro-ministro e a serem recebidos com grande hospitalidade nas respectivas residências oficiais. Trata-se de um momento particularmente enternecedor porquanto ficamos plenamente persuadidos de que, ao receber em suas casas a gente simples que lhes bate à porta para... Ler mais>>>

»» Folclore: das Paradas Agrícolas aos Cortejos Etnográficos
Os cortejos etnográficos constituem um espectáculo geralmente muito apreciado do público, mesmo comparativamente às exibições de ranchos folclóricos, vulgarmente designadas por festivais. Em diversas localidades do país, eles integram as respectivas festividades, atraindo milhares de forasteiros e tornando-se, quase sempre, um dos momentos mais apreciados do público. São exemplo o cortejo nas Festas em Honra de Nossa Senhora da Agonia, em Viana do Castelo e nas Feiras Novas, em Ponte de Lima. Ler mais>>>

»» O Folclore virou mercadoria da sociedade de consumo
Mais do que uma forma de representação das nossas tradições populares, o folclore tem vindo cada vez mais a transformar-se numa mercadoria e a proporcionar o aparecimento de novas profissões a ele associadas, com especial incidência para as que se relacionam com a actividade dos ensaiadores, dos tocadores e dos próprios empresários do folclore, ou seja, aqueles que dirigem os respectivos grupos e fazem a gestão dos seus contratos. Ler mais>>>

»» As origens pagãs do Bolo-rei
À semelhança do que sucede com a generalidade dos costumes actuais, perde-se no tempo a verdadeira origem do bolo-rei, da mesma forma que também este apresenta formas e designações variadas consoante as culturas. Assim, em Inglaterra mantém-se a tradição de comer e efectuar corridas com panquecas por ocasião da Terça-feira Gorda. Tratam-se, na realidade, de festividades de origem pagã que se encontram ligadas a rituais de fertilidade que outrora se realizavam por ocasião do Entrudo e (...) Ler mais>>>

»» A Coroa do Advento
A Coroa do Advento constitui um dos símbolos da época do Natal a anunciar o nascimento do Messias. Nos domingos do Advento, considerado o primeiro tempo do Ano Litúrgico correspondendo às quatro semanas que antecedem o Natal, as quais surgem representadas nas quatro velas. A família reúne-se à sua volta para rezar e celebrar. Ler mais>>>

»» Etnografia e Artes Gráficas
Não existe praticamente festa ou romaria, feira tradicional ou festival folclórico que não tenha o seu próprio cartaz a anunciar o evento e a divulgar o respectivo programa. Desde os mais simples aos melhores elaborados do ponto de vista gráfico, todos revelam uma preocupação de natureza publicitária que consiste em dar a conhecer a iniciativa e garantir o seu êxito em termos de participação do público. Ler mais>>>

Artigos de opinião do Sr. Lino Mendes, publicados no Portal do Folclore Português:

»» Subsídios para «O cantar e o bailar das “saias” em Montargil
Com ou sem influência espanhola, sabe-se que as “saias” são uma moda de raiz alentejana - que no Alentejo, segundo Tomaz Ribas, se bailaria já no século X .Como se sabe que por força das migrações, e noutras formas, se fixou também noutras regiões. E em Montargil, como era? Ler mais>>>

»» O Natal de antigamente - Montargil
Estamos em MONTARGIL e o ano de 1930 está quase a chegar ao fim. Continua a apanha da azeitona, e com a ajuda de vacas e de bois tenta-se acabar a sementeira. Embelga-se e semeia-se aproveitando bem o tempo - já que é neste mês que existe o dia mais pequeno (em que acontecem os dias mais pequenos). Ler mais>>>

»» Gente de antigamente
Parece-me oportuno referir que os textos que, sem a devida sequência de temas, estou enviando para publicação no Portal do Folclore Português, estão entre os que, sendo fruto de 30 anos de pesquisa, integrarão o livro GENTE DE ANTIGAMENTE. Ler mais>>>

»» Montargil
Trata-se de uma “zona de transição”,que estando geograficamente inserida no Ribatejo, etnograficamente tem mais a ver com o Alto Alentejo. Eu atrevo-me até a chamar-lhe o ALENTEJO DA CHARNECA. Já o saudoso amigo Tomaz Ribas dizia, isto quanto ao Ribatejo, que Abrantes e Montargil tinham algo de muito diferente. Ler mais>>>

»» A Cortiça e a Machada de Montargil
Em apontamento anterior, referimos que de vários pontos do país aqui procuravam, pela sua qualidade de fabrico, as “machadas” para tirar cortiça. No entanto, e a exemplo de outras artes e ofícios, hoje apenas aqui existe uma loja de ferreiro e trabalhando em especial na construção civil. Ler mais>>>

»» A Arte de tirar cortiça
Para muitos, o “trabalho de campo”é uma actividade reservada aos de menor capacidade intelectual e inferir posição social, ignorando que nalgumas situações se trata mesmo de uma ciência - não o será, por exemplo, o “enxertar”? - e não raras vezes uma arte, como é o caso de “ retirar cortiça à mão”. Ler mais>>>

Adágios Populares sobre o mês de JANEIRO

A Sabedoria Popular é o resultado de séculos, se não mesmo de milénios, de experiências e saberes adquiridos e transmitidos, quase sempre oralmente, de geração em geração. Prova disso mesmo são, por exemplo, os Provérbios, Adágios, Rifões, Ditados Populares e Anexins, que existem aos milhares, sobre diversos e variados temas e assuntos.

Hoje vamos apresentar alguns Provérbios ou Ditados Populares sobre JANEIRO:

- Seda em Janeiro, ou fantasia ou falta de dinheiro

- Janeiro fora, mais uma hora, e quem bem souber contar, hora e meia há-de achar.

- Pescada de Janeiro vale por carneiro.

- Pelo S. Vicente (dia 22) alça a mão da semente.

- Uma invernia de Janeiro e uma seca de Abril deixam o lavrador a pedir.

- Trovão de Janeiro, nem bom prado, nem bom palheiro.

- Vinho verde em Janeiro é mortalha no telheiro.

- Janeiro molhado, se não cria o pão cria o gado.

- Pintainho de Janeiro não vai com a mãe ao poleiro.

- Quando Janeiro vem quente, traz o diabo no ventre.

- Água de Janeiro vale dinheiro.

- Em 1 de Janeiro sobe ao outeiro: se vires verdejar põe-te a chorar; se vires terrear põe-te a cantar.

- Janeiro quente traz o diabo no ventre.

- Bons dias de Janeiro, veem-se a pagar em Fevereiro.

- No Minguante de Janeiro corta o madeiro.

- Não há luar como o de Janeiro nem amor como o primeiro.

- Ao luar de Janeiro se conta dinheiro.

- Em Janeiro, um porco ao sol outro ao fumeiro.

- Pescada de Janeiro vale dinheiro.

- Trovão em Janeiro, nem bom prado nem bom palheiro.

- Janeiro greleiro não enche o celeiro.

- Janeiro frio e molhado, enche o celeiro e farta o gado.

- Janeiro tem uma hora por inteiro.

- Janeiro frio e molhado enche a tulha e farta o gado.

- Janeiro vai, Janeiro vem: feliz daquele que vê seu bem.

- Em Janeiro pasta a lebre no lameiro e o coelho à beira do regueiro.

- Em Janeiro o boi e o leitão engordarão.

- Em Janeiro sete capelos e um sombreiro.

* * * * *

Se quiser conhecer mais provérbios ou adágios populares sobre o mês de Janeiro, clique aqui.

Também poderá conhecer diversos provérbios e adágios populares sobre diversos temas e assuntos, clicando aqui.

Mês de Janeiro de 2011

Entrados no ano de 2011, não podemos deixar de referir que Janeiro é o primeiro mês desde que, no ano 153 antes de Cristo, os romanos decidiram que cada ano teria o seu início no dia 1 deste mês em homenagem a Jano, que os protegeu durante a guerra com os Celtiberos. Até então, o ano começava a 15 de Março e Janeiro era o 11º mês do ano, por vontade do 2º rei de Roma, Numa Pompílio.

Durante este mês, há inúmeras tradições e costumes populares que importa recordar, como, por exemplo: "Cantar os Reis" e "Cantar as Janeiras". Diversos cancioneiros populares e tradicionais a isso fazem referência.

No dia 20 de Janeiro celebra-se, de Norte a Sul do nosso país, o Mártir São Sebastião (protector contra a peste), Em algumas aldeias do concelho de Boticas (região de Barroso, no Norte do distrito de Vila Real) há, neste dia, algumas tradições que possuem características comunitárias muito próprias, com destaque para a Mezinha de São Sebastião.

Também em Sta Maria da Feira se celebra este mártir, com inúmeras actividades, sendo de destacar a Bênção das Fogaças e a Procissão.

Para além destas, há outras Festas e Romarias de Norte a Sul de Portugal que, eventualmente, lhes importa conhecer.

O Calendário Agrícola diz-nos que “Janeiro é o mês das lavouras da terra. Preparação de todas as culturas do Inverno e das terras para batatal (iniciando-se, onde for possível, a plantação da batata precoce).” Para além dos trabalhos no campo, também há muito que fazer na horta, no pomar, no jardim, na vinha, na adega e com os animais.

Neste mês há diversas datas comemorativas e efemérides para celebrar.

Quem nasceu neste mês, entre os dias 1 e 20, pertence ao signo Capricórnio: “Os nativos deste signo são sagazes, económicos, cautelosos, práticos e diplomatas. Suas principais falhas: ambição, rispidez, egoísmo e avareza.” Quem nasceu entre os dias 21 e 31 de Janeiro já pertence ao signo Aquário: “Os nativos deste signo são inteligentes, enérgicos, francos, leais e alegres. Suas principais falhas: egoísmo, tendência a opiniões dogmáticas e ódio por quem os iludir.” Há 100 anos havia diversas superstições e crendices acerca destes signos: Capricórnio e Aquário.

Diz o povo que “Em Janeiro, sobe ao outeiro. Se vires verdejar, põe-te a chorar; se vires terrear, põe-te a cantar.” Mas há outros provérbios que também se referem, com mais ou menos propriedade, a este mês. Tal como há superstições e crendices relativas ao mês de Janeiro.
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